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O amor que guardei para mim

Porque tudo fica mais leve quando compartilhado

Publicado em 27/04/2017, às 08h30 | Atualizado em 27/04/2017, às 08h30

Por Malu Silveira

O que seria do medo se não tivéssemos uma pessoa para nos desafiar a encará-lo? / Foto: Pixabay

O que seria do medo se não tivéssemos uma pessoa para nos desafiar a encará-lo? Foto: Pixabay

Monte aí a cena. Eu, em uma aldeia indígena, lidando com os sintomas de um problema de saúde. Do meu lado, quatro grandes amigas. Cada uma com seus próprios dilemas, suas neuras, suas angústias. Bem mais distante, meu pai. Sem tato, sem jeito, tentando entender o que se passa na cabeça de uma mulher. Bem mais nova, inexperiente, frágil. Enfim, sua filha. Por mensagem, eu desabafo: estou tentando. Ele responde: reaja. Você é forte! Vá ajudar suas amigas que elas precisam de você. Tudo dará certo. Não se preocupe.

Corte para a próxima cena. Achando que ninguém estivesse me observando, me permito derramar algumas lágrimas. Só para tentar lavar a alma, vai que ajuda. Não vou prender meus sentimentos por medo que me julguem, por estar ali naquele paraíso sem olhar para fora. Queria olhar para dentro. Só por alguns instantes não vou ter medo de ser inconveniente ou receio de estragar aquele momento. Precisava colocar pra fora. Sem que eu precisasse dizer muito, elas se levantaram e me abraçaram. Todas juntas, sem falar quase nada. Olhe, mas isso me disse muito.

Então é isso. Se eu pudesse escolher um superpoder, talvez uma das minhas primeiras escolhas seria acabar com a dor daqueles que amo. Sim, porque acho que a felicidade do próximo é a minha. E vice-versa. Se o superpoder não fosse possível, escolheria uma mega missão. E então elegeria repartir tanto as agonias e como as alegrias. Fossem elas minhas ou de quem mora no meu coração. Se essa responsabilidade me fosse negada, eu tentaria pelo menos ajudar. Até mesmo se recusassem minha ajuda. Porque acredito que os gestos, nem que sejam através de bonitas palavras, têm o poder de mudar o dia de alguém.

Na volta do passeio, admirávamos umas frases escritas nas paredes de uma igrejinha abandonada. Até que enveredamos sobre a importância de ter com quem contar e segurar a mão. E chegamos à história do jovem americano Christopher McCandless que, cansado da sociedade em que vivemos, decidiu largar tudo e foi viajar pelos EUA e países próximos de forma bem simples. Poucos dias antes de cometer o erro que o levou à morte, Chris escreveu em um de seus livros: "A felicidade só é real quando compartilhada".

Acho que é isso. Arrisco dizer que não seríamos quem somos se não tivéssemos tido a oportunidade de dividir todas as nossas mágoas e compartilhar nossas alegrias. Creio que nossas angústias estariam aqui, todas presas na garganta, se não tivéssemos a chance de abraçar alguém bem apertado quando mais precisamos. Todas as viagens sozinhos perderiam a graça se não tivéssemos alguém nos esperando ao voltar para casa.



Todas as conquistas não teriam o mesmo sabor se não pudéssemos comemorá-las com alguém do nosso lado. O que seria do medo se não tivéssemos uma pessoa para nos desafiar a encará-lo? Como seria o gosto da tristeza se ao olharmos ao nosso redor ninguém estivesse pronto para nos acudir? Qual seria o tamanho da nossa aflição se não pudéssemos nos distrair com alguém pronto para nos fazer sorrir?

Não posso dizer que admiro aqueles que preferem a solidão. Ou os que, por tanto pecar, terminam sem ninguém. Apenas consigo entender que cada um tem as suas crenças, valores e suas diferentes formas de enxergar um mundo ao seu redor. Não nos cabe julgar. Mas eu entendi que muitos de nós precisam caminhar juntos. Não por fraqueza, mas por pertencimento.

Acho que compreendi que uma boa parcela...

... desses corações que pulsam por aí precisam se conectar uns aos outros para se sentir vivos. Não por apatia, mas por solidariedade. Entendemos, enfim, que tudo fica mais leve quando compartilhado. Assim como o Ubuntu, filosofia africana sustentada pelos pilares do respeito e companheirismo. "Eu sou porque nós somos". E seguimos assim, não porque não temos outra escolha. E sim porque decidimos fazer uma conta estranha, mas que faz todo o sentido: dividir o que temos de ruim para então multiplicar o que fica de bom.

* Há um ano, eu iniciava essa parceria maravilhosa entre o NE10 e o meu blog pessoal, O amor que guardei para mim. Esse período me trouxe muitos presentes e inúmeras experiências. Recebi e-mails, críticas, elogios e abraços carinhosos. Não tenho medo de me despir para falar sobre o que sinto profundamente. Não é minha intenção dourar a pílula. Quero e gosto de falar da vida como ela é: um tapa na cara, uma brisa no rosto, um aperto no coração e um afago na alma. O melhor dessa caminhada é que sigo acreditando que o amor cura tudo - das feridas mais leves às lesões mais profundas no coração. Meu muito obrigada pelo espaço. Seguimos juntxs! ;)


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

O amor que guardei para mim Malu Silveira é jornalista. Uma garota de palavras e que adora frases de efeito. Escreve para tentar entender a vida e esse tal do amor. Outros textos em www.oamorqueguardeiparamim.com.br. maluspmelo@gmail.com

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