O amor que guardei para mim

Errar não nos faz ruim, mas mostra quão indelicados podemos ser

Publicado em 11/05/2017, às 08h20 | Atualizado em 11/05/2017, às 08h20

Por Malu Silveira

 

Precisamos deixar de nos culpar por permitir erros alheios e passar a bola para quem cometeu o deslize / Foto: Pixabay

Precisamos deixar de nos culpar por permitir erros alheios e passar a bola para quem cometeu o deslize Foto: Pixabay

Normal que em um mundo cada vez mais individualista nós tenhamos a mania de nos isolar em nossa própria bolha. Que aprendamos a ser um pouco mais autossuficientes, já que é difícil saber com quem podemos contar. Talvez por mecanismo de defesa vamos aprendendo a ser desinteressados com os sentimentos do próximo porque já temos nossa própria conta de emoções para fechar no fim do dia. Desta forma é comum que se jogue na soma do outro o resultado de questões que estamos, sim, envolvidos, mas não queremos participar das consequências.

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Esse é um assunto recorrente na minha vida e creio que também seja no cotidiano de muita gente. Isso porque, de tão comum, essa visão começou a se espalhar. Vou comprovar minha teoria. Por cerca de dois anos, entrei e saí das sessões de terapia com a mesma pendência. Sempre que eu contava situações nas quais eu tinha a certeza absoluta que o outro havia errado comigo, a psicóloga fazia questão de interromper: “Não, o outro não errou com você. Foi você quem permitiu que errassem contigo”. É o que? Das primeiras vezes, eu rebatia. Não tinha como ceder diante de tal argumento. Para mim, não soava plausível. Pelo contrário, era quase uma ofensa aos meus ouvidos.

Nas consultas seguintes, eu ainda ensaiava um discurso contrário, mas acabava convencida. Nas outras então, já me dei por vencida. É real. Deve ser isso mesmo. Até quando a gente não tem culpa, somos culpados. É isso mesmo que você leu. Chega de deixar a responsabilidade da transgressão para o autor da infração. A culpa é sua mesmo. Culpa sua ter sido atropelado ao atravessar na faixa quando o sinal estava fechado. Óbvio, quem mandou não olhar para os dois lados? Dá pra entender? Dá mesmo não. Por isso que eu também até agora não consigo entender.

A pulga, é claro, ficou atrás da orelha. Pense num senso comum para eu bater na tecla vez ou outra. Mas, sabe como é, a gente vai jogando a poeira para debaixo do tapete. Deixa o problema para lá até que somos surpreendidos de novo com a mesma situação. Dia desses me vi envolvida no mesmo debate. Eu, de um lado, contava uma série de erros que certo alguém havia cometido comigo. Qualquer ser humano com condições de analisar o contexto racionalmente, despido de qualquer sentimento de afetividade relacionado ao cidadão, daria causa vencida a mim. Eis que sou arrebatada pela mesma afirmação. “Mas será o periquito que eu não vou ter paz nesta vida de meu Deus?”, juro que foi o que pensei.

Quem diria que, de quem eu menos esperava, surgiu a mesmíssima reflexão. “Eu tenho que lhe dizer: A culpa é sua. A culpa é sua por ter permitido tais erros". Minha gente, é tão simples assim esta equação, só eu que não estou entendendo tal fórmula? Eu vou me explicar: Para mim, é claro demais que ninguém, em sã consciência, se permita ser machucado por outrem porque quer. Assim, como quem não quer nada, já que está ali de bobeira, se deixa ferir. Faz sentido aí do seu lado da tela?



Não faz sentido dizer que somos culpados por permitir as falhas dos outros. Admiráveis são aqueles que têm a força suficiente para responder à altura o chefe intransigente, o parceiro abusivo, o amigo fuleiro ou o colega egoísta. Mas ninguém é obrigado a ter a determinação de quem consegue cortar o mal pela raiz assim que a primeira erva daninha nasce por ali.

Claro que os atingidos precisam desenvolver a valentia necessária para saber dizer não aos abusos. Isso, eu digo, faz parte do amadurecimento e é proveitoso por demais. Todo deslize que deixamos passar traz um aprendizado enorme e, sem sombra de dúvida, nos torna um ser humano melhor. Mas, por outro lado, continuo insistindo que os responsáveis por causar dor não devem ser, sob hipótese alguma, absolvidos de suas faltas. Principalmente quando eles não se mostram dispostos a mudar.

Ninguém permite erros de propósito. Salvo os sadomasoquistas, acredito que indivíduo nenhum na face desta terra gosta de sofrer. Não está fácil pra ninguém, gente. Duvido alguém querer mais um desengano pra cota. E, digo mais, quem dá segundas chances, oferece com todas as energias positivas para que, pelo menos desta vez, dê certo. Acho difícil alguém aceitar um recomeço já prevendo que vai dar merda. Não, a gente quer é ser feliz e acreditar na mudança das pessoas.

Sigo propondo...

... que joguemos a bola para o outro lado do campo. Precisamos deixar de nos culpar por ter sido trouxas. Por ter ficado sem resposta diante de uma pessoa rude ou ter deixado o carinha partir nosso coração em milhões de pedacinhos mesmo com tantos avisos. A gente precisa aceitar nossas fraquezas e lutar para mudá-las, mas não precisamos limpar a barra de ninguém. Quem errou precisa saber que foi mal-educado por diversos motivos. Agora o que vão fazer com essa carga já é algo que não nos compete. Há quem mude, mas há quem justifique a essência humana para seguir escorregando por aí.

Defendo que errar não faz de alguém um ser humano ruim, mas, vou te contar, em diversas situações nos mostra o quão babacas e indelicados podemos ser. Fica aqui essa reflexão. Paz!


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

O amor que guardei para mim Malu Silveira é jornalista. Uma garota de palavras e que adora frases de efeito. Escreve para tentar entender a vida e esse tal do amor. Outros textos em www.oamorqueguardeiparamim.com.br. maluspmelo@gmail.com

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