Usina de Histórias

Se essa rua fosse minha

Publicado em 07/03/2017, às 12h14 | Atualizado em 07/03/2017, às 13h38

Por Franco Benites

A maioria das pessoas que conheço é possessiva com outras pessoas e objetos. Eu tenho um sentimento de posse diferente. Geográfico para ser mais exato. Sinto ciúmes da rua Gervásio Pires, no centro do Recife, onde cresci e passei boa parte da infância e adolescência entre as casas de nº 539 e 545 – coladas uma na outra, com uma passagem no quintal que interligava as duas e tanto me divertia.

Passo pela Gervásio (permitam-se ser íntimo assim) de vez em quando, principalmente a trabalho, no carro do jornal, com a cabeça enfiada na pauta jornalística ou em preocupações ou alegrias cotidianas. Faz tempo que morei por lá, mas estou longe de ser frio com aquela rua. Vejo pedestres e motoristas indiferentes com as casas, lojas e buracos que ela abriga, mas eu não. Mesmo quando passo por ela rapidamente, enxergo o que ninguém mais ali consegue ver.

É verdade que a Gervário teima em deixar de ser a MINHA rua para se tornar uma rua qualquer deste Recife que insiste em ficar inseguro e caótico. A rua agora é tomada por flanelinhas e comerciantes que enxergam nela apenas o ganha-pão. Não há mais crianças nas calçadas jogando bola, nem adolescentes disputando partidas de dominó ou adultos conversando em frente a suas casas despreocupados com a vida como a vida às vezes pede que assim seja.

A Gervásio se estende da Av. Visconde de Suassuna até o Pátio de Santa Cruz. É um trajeto relativamente longo, que fica maior se o sujeito resolver caminhar debaixo do sol forte. Mas a parte da rua que me toca é curta e vai de uma esquina à outra do Hospital do Exército. Ali estão depositadas as melhores lembranças da minha infância e adolescência.

Um tempo atrás, não lembro a razão, percorri o meu trajeto sentimental a pé. As casas de nº 539 e 545, que já abrigaram o salão da minha tia Giselda, a fotocopiadora em que trabalhei com minha família e foi ponto de concentração familiar para o Galo da Madrugada, hoje estão descaracterizadas.

Uma delas tornou-se uma loja de aluguel de roupas. Faz um tempo, entrei nela sob o disfarce de um cliente. A que ponto cheguei: fingi que estava interessado em um terno para poder colocar os pés de novo dentro daquela casa. Mal passei da porta e tive a dolorosa certeza que o estranho na Gervásio sou eu.

As paredes, o piso e cheiro daquela casa já não eram mais os mesmos da minha infância e adolescência. Corri. Frouxo. Covarde. Sentimentalista. Saudoso. Corri como se correr fosse me ajudar a manter intactas as lembranças de cada ambiente daquela casa em que vivi no passado.

Mas não importa que a Gervásio esteja com Alzheimer e não me reconheça. Eu sempre me reconheço nela.

A RAZÃO DO TEXTO...



 

Me lembrei da rua da minha infância porque sonhei com ela esta semana e também porque, depois de tantos anos, descobri quem foi Gervásio Pires graças ao belíssimo trabalho sobre a Revolução Pernambucana de 1817 feito pelo NE10 e pelo Jornal do Commercio.

As lembranças boas de qualquer passado estão atreladas a pessoas, cheiros, gostos, ruas e avenidas  / Foto: Reprodução/Internet

As lembranças boas de qualquer passado estão atreladas a pessoas, cheiros, gostos, ruas e avenidas Foto: Reprodução/Internet

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Usina de Histórias Franco Benites é um jornalista recifense que trocou momentaneamente a terra dos altos coqueiros para estudar em Braga, Portugal. Entende que o mundo foi feito para ser vivido, observado e narrado.. francobenites@gmail.com

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