Usina de Histórias

Mão amiga

Publicado em 16/05/2017, às 11h01 | Atualizado em 16/05/2017, às 14h51

Por Franco Benites

Não é sempre que ocorre, mas há dias em que não consigo chegar em casa antes das 23h, 23h30 e então o sacrossanto passeio de 15 a 20 minutos que faço com Luke beira a meia-noite. Eu desço tranquilo para a rua e ele mais ainda, feliz por poder fazer as necessidades dele e certamente na expectativa de encontrar algum outro cachorro para interagir - o que, nesse horário, quase nunca acontece.

Nesses dias de violência gratuita em que o Recife vive, eu certamente não teria coragem de ir à padaria da esquina com o relógio marcando zero hora, mas com Luke eu ando uns dois quarteirões como se não houvesse amanhã.

É ingenuidade minha achar que nada vai acontecer porque há tanta gente ruim no mundo e muitas vezes penso que alguém pode aparecer e querer tentar sequestrar Luke, mas quando a gente começa a caminhar, ele fuçando aqui e ali, querendo correr atrás de umas lagartixas grandes que cruzam nosso trajeto, eu não consigo enxergar perigo.

É como se estar acompanhado do meu cachorro, um lhasa apso inofensivo e alegre de quase dois anos de idade, me desse poderes de super herói ou me colocasse dentro de um campo de força.

Mesmo em uma rua onde há assaltos vez por outra, a minha fé em Luke sempre seguiu inabalável até umas três semanas atrás. Já bem distante do prédio, nos deparamos com uma dupla em atitude suspeita em uma das esquinas da rua e assim que passamos um dos rapazes falou para o colega e principalmente para eu escutar: 'queria um bichinho desses'.



O coração falhou uma batida e eu já pensei nas mil possibilidades de ação e reação. Como reagiria, porque sim, deixar que levassem Luke sem esboçar um mínimo de atitude não era uma possibilidade, para onde correria e como gritaria para acordar a vizinhança e chamar a atenção dos porteiros.

E Luke, o que fez? Alheio à provocação do homem da esquina e muito mais alheio ainda a minha aflição, Luke fez o que qualquer cachorro faria: manteve a calma, se agachou, olhou pra mim, olhou pros desconhecidos e começou a fazer cocô.

Sem pressa, porque já passava da meia-noite e ele não tinha compromisso no dentista no outro dia, nenhuma conta a pagar, não era obrigado a nada e muito menos não tinha nenhuma satisfação a dar a ninguém. Talvez, ali, com o coração em paz e o intestino sendo esvaziado, ele apenas pensasse em Zaira, uma cadela que mora uns três prédios depois do nosso, é o dobro do tamanho dele e pela qual ele tem uma queda.

Diante daquela cena inusitada, eu vi que não precisava ter medo de nada, que a vida assusta muitas vezes, mas que o pensamento positivo também nos coloca no bom caminho e nos dá proteção.

Vi, ainda, que é sempre bom ter uma mão amiga para nos encorajar a colocar os pés na rua à meia-noite e muitas vezes a rua e o horário são apenas elementos figurativos, podem ser qualquer um dos nossos medos, mas a mão amiga é real e está lá.

Às vezes, a mão amiga é uma pata peluda que pede carinho de manhã quando você está dormindo e te dá amor e coragem em doses infinitas sempre.

Eu e Luke: às vezes, tudo o que a gente precisa é de uma mão amiga, mesmo que ela seja uma pata peluda / Foto: Acervo pessoal

Eu e Luke: às vezes, tudo o que a gente precisa é de uma mão amiga, mesmo que ela seja uma pata peluda Foto: Acervo pessoal


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Usina de Histórias Franco Benites é um jornalista recifense que trocou momentaneamente a terra dos altos coqueiros para estudar em Braga, Portugal. Entende que o mundo foi feito para ser vivido, observado e narrado.. francobenites@gmail.com

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  • De: Necy Pernambuco- 19/05/2017 08:13 adorei, nossos amigos de 4 patas são maravilhosos. amo muito.
  • De: veronica- 18/05/2017 15:13 Adorei sua história ! Esses nossos amigos de quatro patas têm muito a nos ensinar.Parabéns pelo seu grande amigo!!!
  • De: Luiza- 18/05/2017 07:28 "o pensamento positivo nos coloca no bom caminho e nos dá proteção" muito bom!
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