Usina de Histórias

Rua sem saída

Publicado em 04/07/2017, às 16h30 | Atualizado em 04/07/2017, às 16h45

Por Franco Benites

Dirigir carro para mim é OK. Nem gosto e nem desgosto. Na verdade, gosto mais do que desgosto, mas não gosto tanto assim como a maioria das pessoas, ou dos homens pelo menos. Enquanto meus amigos já pegavam o veículo do pai ou do tio na adolescência para ir a festas ou até mesmo à escola (eram outros tempos), eu trabalhava para ter um dinheirinho no final do mês e batia bola no tempo livre. Ninguém do meu núcleo familiar tinha automóvel e isso deve ter contribuído para que eu não me tornasse um apaixonado pelo mundo das quatro rodas.

Tirei a carteira de motorista aos 21 anos, mas só fui dirigir mesmo, para ser sincero, aliás, só aprendi a dirigir de fato aos 25 quando comprei o primeiro carro. Não sei como é com a maioria das pessoas, mas eu me sentia um tanto desconfortável no início e só peguei confiança na direção uns meses depois. Nas primeiras semanas, as noites eram marcadas por pesadelos horríveis em que eu errava os pedais e atropelava pessoas. O medo faz uns troços loucos com a cabeça da gente.

Hoje, me considero um bom motorista. Dirijo certinho, sem ultrapassar os limites de velocidade, respeito as placas de sinalização, pedestres, ciclistas, motociclistas, outros motoristas, gato, cachorro, periquito e papagaio. Depois que adotei Luke, até um adesivo com a frase "eu freio para os animais" colei no carro. Também guio bem em rodovias, embora dessas queira distância quando está de noite.

Essa enrolação toda é porque, dia desses, levei uma fechada no trânsito e me lembrei que, por mais calmo que eu seja, no início da minha vida de motorista eu não deixava uma situação dessas passar em branco não. Ia atrás do feladap, digo, do outro motorista, batia boca, até tentava dar o troco. Aos poucos, ainda bem, fui me conscientizando de que estava flertando com o perigo e que faltava muito pouco para me tornar uma outra pessoa.



Dessa última vez, levei a fechada, o sangue subiu, fiquei de cara feia, disse uns palavrões mentalmente, mas deixei o carro se distanciar de mim e segui o meu caminho.

Vejo a internet, pelo menos a caixa de comentários na internet, como grandes avenidas e rodovias. O pior: elas estão repletas de péssimos motoristas, gente que se acha no direito de "passar o carro" em cima dos outros com comentários agressivos e um certo prazer em botar seja lá quem for para baixo.

Fulano perdeu o filho e se tornou personagem de uma reportagem? Abra a caixa de comentários e você vai ver um comentário desgraçadamente sórdido. A pessoa ganhou na loteria e virou notícia? Vai ser alvo de maldade. E por aí vai.

Se o assunto for política, sobram pessoas fazendo curvas acentuadas à esquerda ou à direita a 200 km por hora. Tento não ler os comentários, mas sempre caio na besteira e me deparo com uma placa de rua sem saída.

As caixas de comentários muitas vezes são avenidas cheias de péssimos motoristas; ou pior: se transformam em ruas sem saída / Foto: Reprodução/Internet

As caixas de comentários muitas vezes são avenidas cheias de péssimos motoristas; ou pior: se transformam em ruas sem saída Foto: Reprodução/Internet


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Usina de Histórias Franco Benites Franco Benites é jornalista e repórter do Jornal do Commercio. Entende que o mundo vai além da briga entre esquerda e direita e foi feito para ser vivido, observado e narrado. francobenites@gmail.com

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