Usina de Histórias

Os meus, os seus, os nossos livros

Publicado em 18/07/2017, às 14h00 | Atualizado em 18/07/2017, às 20h51

Por Franco Benites

Nunca pensei que este dia chegaria, mas ele chegou: o dia em que resolvi vender uma grande parte dos meus livros. Não tenho uma biblioteca enorme, até porque me falta espaço físico em casa, mas guardo, ou melhor, guardava, ótimos livros e vivia pregando aos quatro ventos que deles não iria me desfazer.

Com biografia de Getúlio em Vargas (brilhante trilogia escrita pelo cearense Lira Neto) em mãos, eu bradava, em instantes diante da estante, que jogaria as roupas fora, que andaria nu, que ficaria sem comer, mas os livros seguiriam em minha posse por todo o sempre.

Como vocês podem ver, esse discurso de uma vida inteira ruiu e não passou de uma bravata.

A trilogia de Getúlio foi um dos primeiros itens da minha estante a ir embora em troca de alguns reais. Depois dela, outras obras literárias foram embora.

Livros comprados recentemente, livros adquiridos uma década atrás, livros recebidos como presentes de aniversário ou de Natal, livros, livrinhos, livrões, quase não sobrou nada.

Não está sendo fácil vender os livros - para um jornalista, como se sabe, livro é o mais importante entre os bens materiais -, mas tenho contado com o apoio das pessoas que se tornaram minhas compradoras.



Umas dizem que vão cuidar bem dos livros, outros mostraram uma alegria sincera por enfim poder conseguir ler determinado exemplar e há quem tenha feito negócio comigo para presentear um amigo ou parente. Meus livros, quer dizer, os livros estão em boas mãos.

Desculpem o drama, mas não há um só dia que não pense nos livros que estão indo embora e nas histórias e alegrias que me proporcionaram. Então me dei conta que vender livros, sobretudo pela internet, como tenho feito, é expor um pouco da minha intimidade. Ao conferir a lista dos livros que coloquei para vender as pessoas têm uma ideia maior do que sou e dos meus gostos.

Essa intimidade fica mais aberta ainda a quem comprou os livros. Eles verão as dedicatórias que recebi, as páginas que marquei, as palavras que grifei. Talvez não entendam tudo totalmente e estarão longe de me decifrar, mas saberão mais um pouco sobre quem sou, sobre dúvidas que tive, sobre o que me marcou ou chamou a atenção em determinado momento da vida.

No futuro, espero ter dinheiro para comprar mais livros, porém já decidi que eles não ficarão na minha estante por muito tempo. Uma colega jornalista, que me deu Caim (José Saramago), livro que vendi recentemente, e que me comprou Meu Querido Vlado (Paulo Markun), me disse que livro é para seguir adiante. A vida também. 

É isso, colocando a vida em marcha, que estou fazendo ao vender os livros. Agora, os meus, os seus, os nossos livros.

Não é fácil para um jornalista se desfazer dos seus livros, mas os livros foram feitos para seguir adiante e a vida também / Foto: arquivo pessoal

Não é fácil para um jornalista se desfazer dos seus livros, mas os livros foram feitos para seguir adiante e a vida também Foto: arquivo pessoal


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Usina de Histórias Franco Benites é um jornalista recifense que trocou momentaneamente a terra dos altos coqueiros para estudar em Braga, Portugal. Entende que o mundo foi feito para ser vivido, observado e narrado.. francobenites@gmail.com

Continue Lendo

COMENTE ESTA MATÉRIA

Nome:
E-mail
Mensagem

O comentário é de total responsabilidade do internauta que o inseriu. O NE10 reserva-se o direito de não publicar mensagens com palavras de baixo calão, publicidade, calúnia, injúria, difamação ou qualquer conduta que possa ser considerada criminosa.

Vitrine NE10
Vitrine NE10
Fechar vídeo