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A Riqueza Singular: a semelhança entre a economia e o universo

Publicado em 27/11/2018, às 10h38 | Atualizado em 27/11/2018, às 11h14

Por Marcelo Sampaio de Alencar

São colossais buracos negros da economia, que sugam a tudo e a todos / Foto: Pixabay

São colossais buracos negros da economia, que sugam a tudo e a todos Foto: Pixabay

A singularidade gravitacional é um conceito da Cosmologia que envolve a curvatura infinita no espaço-tempo, ou seja define um ponto no qual a densidade de massa de determinado corpo é tão elevada, que a curvatura decorrente no espaço-tempo é infinita. Isso é função do campo gravitacional extremamente intenso produzido nas imediações do ponto singular.

Em matemática, a singularidade é um ponto no qual uma função assume valores infinitos, ou tem um comportamento indefinido. Essa singularidade é também conhecida com função impulso, tendo sido descrita inicialmente pelo matemático britânico Paul Adrien Dirac, para o cálculo de probabilidades.

A singularidade associada à gravidade é mais conhecida como buraco negro, um termo criado, em 1968, pelo físico teórico norte-americano John Archibald Wheeler, para descrever de maneira dramática a característica mais perceptível do fenômeno, ou seja, a luz não conseguir refletir ou escapar do seu interior. Portanto, o buraco negro não pode ser visto.

A ideia de um corpo de grande massa, do qual nada pode escapar, nem a luz, foi inicialmente formulada pelo geólogo britânico John Michell, em uma carta escrita a Henry Cavendish, da Royal Society, em 1783. Em 1796, o matemático Pierre-Simon Laplace
mencionou a ideia em seu livro "Exposition du Système du Monde", no qual usa a terminologia "estrela negra," espécie de antepassado conceitual do buraco negro.

O conceito moderno de buraco negro se deve ao trabalho de Albert Einstein, visto que sua Teoria Geral da Relatividade prevê sua formação. Entretanto, o primeiro cientista a demonstrar que essas estruturas podem se formar foi o físico e astrônomo alemão Karl Schwarzschild, em 1915, em carta ao próprio Einstein.

Os buracos negros se formam a partir do colapso de estrelas supermassivas, com massas muito superiores à do Sol, e continuam a sugar todos os corpos ao seu redor, podendo consumir uma galáxia inteira depois de algum tempo.

No centro da Via Láctea, a galáxia que contém o Sol em um de seus braços, há um buraco negro cuja força gravitacional obriga todos os corpos a orbitarem, em uma espécie de dança macabra, até que sejam finalmente tragados, em um festim colossal que consumirá a galáxia inteira, em alguns bilhões de anos.

O universo conhecido, em seu período inicial de vida, no entanto, tinha uma distribuição de massa bastante uniforme, e parecia que continuaria assim indefinidamente.

Mas, pequenas flutuações localizadas aumentaram a densidade do Hidrogênio existente, provocando a ignição de estrelas, que passaram a produzir, por fusão, outros elementos mais pesados.

A fusão continuou até a síntese do Ferro que, em vez de produzir, absorve energia. Isso rompe o tênue equilíbrio que mantém as estrelas funcionando. A produção do Ferro provocou o colapso de estrelas massivas, criando supernovas, explosões gigantescas que levaram à formação dos outros elementos naturais da Tabela Periódica, que deram origem aos planetas e outros corpos celestiais.

Os gases, principalmente Hidrogênio e Hélio, junto com a poeira cósmica, formada por outros elementos químicos gerados nas supernovas, formaram estruturas maiores, como as nebulosas, conhecidas como berçários de estrelas. 

As estrelas, com eventuais planetas, asteroides e cometas ao seu redor, compõem as galáxias, que podem se aglutinar, para formar novas, maiores e mais complexas galáxias. A Via Láctea com 200 a 400 bilhões de estrelas é, possivelmente, o resultado de uma fusão com a galáxia Gaia-Enceladus, há 10 bilhões de anos.

A distribuição mundial da riqueza funciona de maneira similar à distribuição de massa no universo. No princípio a economia era singela e relativamente homogênea, com caçadores, mineradores e agricultores trocando bens, há milhares de anos.

Isso propiciava a concorrência e a livre iniciativa, visto que o poder econômico, dito poder de mercado, era distribuído. Entretanto, devido a pequenas flutuações nas relações de troca ou de poder, a riqueza foi se concentrando em determinados grupos, alguns segmentos da economia, ou em poucas mãos.

Desde então, a acumulação de riqueza tem sido a tônica, levando a fusões e aquisições, que alimentam o modelo econômico vigente. Essa acumulação é nociva para a economia, porque provoca a busca por produtos de elevado valor e pouca utilidade, causa inflação de demanda, retira recursos da economia produtiva, drena o dinheiro disponível.

Em decorrência, segundo dados levantados pelo economista francês Thomas Piketty, o dinheiro aplicado apenas na obtenção de renda, sem vínculo direto com a produção, já chega a mais de seis vezes a produção de todos os países juntos.

Isso pode parecer estranho ou absurdo, mas não há engano na afirmação anterior. Os rentistas têm hoje renda equivalente a 600% do Produto Interno Bruto (PIB) do mundo, ou seja, essa parcela de capitalistas poderia comprar toda a produção de bens e serviços do mundo por seis anos seguidos, deixando o restante da população, literalmente, sem nada.

Pleonexia era o termo que Platão, fundador da Academia, e seu discípulo Aristóteles, criador do Liceu, usavam para designar a base da injustiça na sociedade. O termo significa ter mais, adquirir mais, sem que essa aquisição seja motivada por necessidade.

Esses filósofos viam na desigualdade social o cerne de toda injustiça e, por esta razão, cunharam o termo para designar a avidez pelo ganho, a ganância, que, segundo eles, levava a sociedade a problemas como o vício e a injustiça.

Segundo Aristóteles, na justiça distributiva, em que a partilha de bens entre as pessoas se processa segundo o mérito de cada um, ser injusto consiste em querer possuir mais, em buscar vantagem indevida, tomando de outra pessoa aquilo que ela merecia. A pleonexia atual faz com que os rentistas detenham, apenas nos Estados Unidos, US$ 120 trilhões, seis vezes o maior PIB do mundo, de pouco mais que US$ 20 trilhões. São colossais buracos negros da economia, que sugam a tudo e a todos, em uma acumulação desenfreada que consome tudo, destrói vidas, e pouco produz.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

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Difusão Marcelo S. Alencar Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular da UFCG e presidente do Instituto de Estudos Avançados em Communicações (Iecom).. Email: sampaio.alencar@gmail.com e no twitter: @marcelosalencar

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