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Leila Krüger e o caleidoscópio das palavras

Publicado em 15/01/2015, às 15h46 | Atualizado em 15/01/2015, às 15h56

Por Fábio Lucas

Ser escritor, na minha opinião, é algo que tem que ser levado a sério, profissionalmente, defende Leila Krüger  / Foto: divulgação

Ser escritor, na minha opinião, é algo que tem que ser levado a sério, profissionalmente, defende Leila Krüger Foto: divulgação

Ela nasceu em Ijuí, no Rio Grande do Sul, e é autora de três livros: um romance, um de poesia e um de crônicas. Escreve apaixonadamente desde sempre, mas o primeiro livro só publicou em 2011, “Reencontro”, pelo selo Novos Talentos da Literatura Brasileira, da editora Novo Século. Em entrevista ao NE10, Leila Krüger diz que escrever é uma necessidade que precisa ser levada a sério, e não importa em que suporte – na tela ou no papel, num blog ou num livro, o escritor se revela e se entrega ao olhar de quem lê. “Há sempre uma relação única entre uma obra e um leitor, como entre a obra e o autor na escrita. Um livro é um caleidoscópio. Novos raios de luz e até sombras aparecem”, afirma Leila, que está concluindo o próximo romance.

Quando e como você decidiu que seria escritora?
Leila Krüger
- Pra falar a verdade, só lá por 2010 pra 2011 eu comecei a pensar nisso de ser escritora. Quer dizer, eu “decidi” ser. Escrevi um livro quando tinha uns 13 anos, ficou na gaveta e se perdeu pra sempre. Escrevia em blogs, sempre escrevi muito, além de desenhar, mas nada visando a publicar ou construir uma carreira literária. Penso que “ser escritora” é uma coisa séria, que tem que ter profissionalismo, embora no Brasil, por exemplo, geralmente essa carreira não seja levada tão a sério como nos países de Primeiro Mundo. Então, oficialmente, entrei na carreira literária com meu romance “Reencontro”, pela editora Novo Século, fim de 2011. Tive a bênção de começar em uma grande editora, no selo Novos Talentos da Literatura Brasileira.

Por que escrever profissionalmente, ver-se no espelho como escritora?
Leila Krüger -
Acho que é uma coisa que nasce com você, aquele dom, aquela necessidade de traduzir a si mesmo e ao mundo com palavras. Eu acredito que, de uma forma ou de outra, o que está no fundo do seu coração, o que você veio fazer no mundo acaba sempre o encontrando em um trecho do caminho. E aí você escolhe se vai seguir isso ou não. No meu caso, lá por 2010 eu deparei com meu coração gritando que eu precisava escrever, escrever, escrever. Não só para mim, como antes. Para outras pessoas. Para o mundo. É como beber água, mas é muito melhor do que água. É beber alma. 

O primeiro livro é sempre um marco. Como foi pra você?
Leila Krüger
- Foi incrível. O primeiro lançamento, na Livraria Cultura em Porto Alegre, as pessoas lendo meu livro, comentando, dizendo que tinham se identificado, que o livro as tinha tocado profundamente, essas coisas que quebram o coração de um escritor. De repente eu estava autografando na Feira do Livro de Porto Alegre e em outros lugares. “Reencontro” foi o marco físico da minha entrada no mundo literário. Foi um livro que ruminei por um bom tempo até finalmente começar a escrever.  

E o que significa hoje o primeiro livro?
Leila Krüger
- “Reencontro” foi não só um marco na minha carreira literária, mas um marco na minha vida, uma transição para outra fase dentro e fora de mim. Hoje olho para trás e fico feliz e grata por ter ingressado nesse País das Maravilhas, repleto de perigos e emoções e também fantasias que é o mundo onde vive o escritor. Escrever é diferente de ser escritor: como eu disse, ser escritor, na minha opinião, é algo que tem que ser levado a sério, profissionalmente. Mas se você levar a sério demais, também, aí você para de ser escritor e vira só alguém que escreve, regride, meios que justificam fins, conteúdo programado, tendencioso, suas palavras perdem a alma e a alma é o que faz um escritor de verdade.

Você tem três publicados, em gêneros diferentes - romance, poesia e crônica. Qual a diferença no tempo e no modo de preparação de cada um?
Leila Krüger -
Meu romance, o primeiro livro, foi planejado e preparado, e revisado várias vezes com afinco. Levei bastante tempo para concluí-lo. Acho que, quanto maior o livro, mais tempo ele pede, embora isso não seja uma regra. Romances em geral são profundos, extensos, às vezes polêmicos, envolvem várias coisas ao mesmo tempo, podem marcar época. Meu segundo livro, “A Queda da Bastilha”, é uma reunião de 40 poemas que já estavam escritos por mim e foram editados por Majela Colares, poeta e contista reconhecido no Brasil e no Exterior. Ele leu e achou que eu deveria publicar “aquelas coisas que eu escrevia para expressar o que sentia e pensava”, por acaso poemas. Eu não pensava em publicar um livro de poemas. O Majela, o escritor, me ensinou a métrica, a técnica, mostrou inspirações – porque sempre gostei de poesia, mas sem olho crítico – e acho que aí me tornei uma poeta-romancista ou vice-versa. Reunimos meus poemas, fiz mais alguns durante um tempo curto e publicamos. O livro foi bem elogiado, até por membros da Academia Brasileira de Letras a quem enviei. “A Queda da Bastilha” é como um pequeno diário de confissões. Pretendo lançar outros livros de poemas, quem sabe temáticos.

E o de crônicas?
Leila Krüger -
Sobre “Coração em Chamas”, eu queria publicar um livro de crônicas. Tive a ideia de escrever crônicas de histórias de amor, mas não histórias triviais e sim que fizessem refletir sobre o próprio amor e a essência humana, e sobre o certo e errado, o permitido e o proibido. É um livro que dá uma visão social do amor, questiona se “os fins (o amor) justificam os meios”, a moralidade, o preconceito. Tem crônica de padre, de prostituta, de poeta, de atriz famosa, de nerd, de milionário materialista etc.

Pretende seguir desenvolvendo todos os gêneros? Só falta uma coletânea de contos...
Leila Krüger –
É, agora falta um livro de contos! Penso em contos lúgubres, estilo Allan Poe, não sei por que eu gosto desse gênero macabro. O último texto de “Coração em Chamas” é desse estilo e é uma homenagem ao poeta Álvares de Azevedo. Sobre seguir todos os gêneros na carreira, eu vou trilhar com mais dedicação o caminho dos romances a partir de agora; tô terminando um. Tentando unir nele História, mistérios, aventura, amor, existencialismo, tudo isso junto, será que dá certo? Quem sabe!
 
A internet tem revelado muitos novos autores, que tem migrado da plataforma virtual para os lançamentos de papel. Você faz parte dessa geração, com colunas em sites e blog...
Leila Krüger -
Olha, não posso dizer que foi a internet que me levou para o impresso. Eu escrevia em blogs, mas na época em que escrevi o livro já não era um hábito. Eu também não era colunista de nenhum portal. Escrevi minha história e a enviei a editoras. A partir do lançamento de “Reencontro” é que fui estender a carreira literária à mídia digital. Agora, sem dúvida o meio digital, a web, é um ótimo caminho pra divulgar escritores e artistas de todos os gêneros. É a democratização da informação. É a livre-expressão. Os custos são menores, o público é muito mais amplo, de qualquer parte do mundo. O problema é só se destacar na tempestade de pessoas que se expressam, você tem que ter estratégia, diferenciais, e aí entra o que falei de levar a sério ser escritor, o caminho, o público leitor, caso queira seguir essa trilha e não ser uma pessoa que escreve, mas um escritor.

Mas para se sentir escritora, o livro tradicional é essencial?
Leila Krüger -
Pra mim é porque eu amo tocá-lo, olhá-lo, folheá-lo, abraçá-lo. Mas não acredito que seja essencial para um autor. Afinal ser escritor é escrever, não importa em que suporte. E aí vem aquela história se a tela vai substituir o papel... eu acredito que não, nunca vai subjugá-lo, apenas complementar, constituir uma alternativa cada vez mais acessível para a leitura. Tenho um livro apenas em e-book, “Coração em Chamas”, mas vejo que os leitores geralmente preferem os impressos mesmo, seus objetos de posse, seus bilhetes de passagem para lugares diferentes, almejados, alguns nunca antes imaginados.
 
"Um livro é um coração que bate nas mãos de quem lê"... Na relação entre a obra e o leitor, o autor descobre novas perspectivas e a literatura se mostra sempre renovada?
Leila Krüger -
Um livro é um coração de autor nas mãos de um leitor. Agora, como esse coração é lido depende da lente de cada leitor, a lente do seu coração. A literatura é infinita sob esse ponto de vista, cada um vê o mundo que vê e lê o livro que lê dentro de si mesmo. Cada livro é uma fonte inesgotável de impressões, sentimentos, ideias, se completa em cada leitor. É verdade, há sempre uma relação única entre uma obra e um leitor, como entre a obra e o autor na escrita. Um livro é um caleidoscópio. Novos raios de luz e até sombras sempre aparecem. Às vezes ficam eternizados no coração.   
 
Pra encerrar, um livro que te marcou em 2014, cuja leitura ainda está na memória, na retina.
Leila Krüger –
Que estão na minha memória são vários, mas acho que posso citar “Breviário das Terras do Brasil”, do Luiz Antônio de Assis Brasil. Nunca tinha lido esse autor consagrado e fiquei aparvalhada com a mistura de poesia, prosa e romance, cada linha uma sensação, cada sensação um poema, cada poema uma história, tudo mergulhado em gotinhas de ironia e crítica social. É sobre um tema que muito me interessa, uma época da História, a Inquisição, no Brasil do século 18. O personagem principal é Francisco Abiaru, um índio recém-convertido capturado em um rio pelos portugueses. O contraste entre o selvagem e o civilizado, entre a inocência e a pureza e um sistema de crenças milenares que oprime a Humanidade e embosca a política, a economia, a cultura: a religião, o ser humano no que ele tem de mais único e humano. Quero ler mais desse autor, a literatura precisa de palavras tão peculiares e mágicas.

 Wellington de Melo, editor da Mariposa Cartonera

Wellington de Melo, editor da Mariposa Cartonera Foto: divulgação

CARTONERA EM CAMPANHA COLABORATIVA
- No diversificado e competitivo mercado editorial brasileiro, em que lançamentos independentes – apesar das dificuldades – começam a aparecer mais, há espaço para propostas que unem solidariedade, participação e criatividade.

É o caso da campanha de crowdfunding lançada pela Mariposa Cartonera, que produz livros artesanais com capas de papelão reutilizado – para cada leitor, uma capa única, original. Agora os leitores são chamados a colaborar com o financiamento de uma coleção especial de títulos de dez autores brasileiros contemporâneos. Ronaldo Correia de Brito e Marcelino Freire já estão confirmados. A coleção completa está prevista para o decorrer do ano, mas a intenção é finalizar os lançamentos até julho.

Os valores investidos podem variar, gerando diferentes recompensas, proporcionais à colaboração realizada. Entre as possibilidades, cópias virtuais dos livros, kits exclusivos com toda coleção ou vídeos de agradecimento para empresas apoiadoras, gravados pelos próprios autores.

A edição será feita pela Mariposa Cartonera, mas a manufatura das capas será distribuída entre cartoneras de Pernambuco, que passarão a contar com os autores que publicaram em seu acervo, além de receber pela confecção de cada exemplar. Todos os títulos terão tiragens pequenas, de 50 exemplares cada. “A lógica é utilizar princípios da economia solidária e do comércio justo, garantindo distribuição de renda entre todas as editoras e publicando livros de baixo custo para os leitores”, explica Wellington de Melo, editor da Mariposa Cartonera.

O movimento cartonero está em franca expansão nos últimos anos, no mundo inteiro, e se apresenta como alternativa editorial principalmente para os novos autores. Mas autores consagrados também apostam no modelo, que se baseia na democratização da literatura. “São mais de dez anos do movimento e ele parece crescer cada vez mais, talvez porque não seja simplesmente algo relacionado a vender livros: há toda uma percepção de como se concebe o papel da literatura na sociedade e a participação de toda a cadeia no processo, desde o editor, passando pelo escritor e pelo leitor, tudo numa lógica de autonomia e autogestão, princípios importantes para a economia solidária”, diz Wellington de Melo.

Quem se interessar pode acessar www.kickante.com.br/mariposacartonera para participar do projeto.
 
RODAPÉ

A verdade é triste quando é única. (Mia Couto, Antes de nascer o mundo)

 

 

 

 

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Marca texto Fábio Lucas é jornalista e mestre em filosofia. fabiolucas@uol.com.br

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