O amor que guardei para mim

Esqueça a doença e ela esquecerá você

Publicado em 25/01/2018, às 19h15 | Atualizado em 25/01/2018, às 19h26

Por Malu Silveira

É preciso aprender a dançar descalço na chuva enquanto o sol não chega / Foto: Pixabay.

É preciso aprender a dançar descalço na chuva enquanto o sol não chega Foto: Pixabay.

Dia desses estava no posto do CVV Recife (Centro de Valorização da Vida), onde atuo como voluntária, e me encontrei com outros dois voluntários, bem mais velhos - tanto de idade como de tempo na entidade. Geralmente, no meu horário de atividades, não encontro outras pessoas. Estou acostumada com a solidão no Centro. Por isso, demorei a me entrosar com eles, que em seus intervalos aproveitaram para tomar um cafezinho e conversar sobre a vida. Foi só me oferecerem café que eu já cheguei mais perto.

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Conversamos por um bom tempo sobre como o voluntário mais velho era um grande conhecedor da vida. O mais novo afirmava a todo momento que o mais experiente tinha muito a nos ensinar. Com tantos elogios à pessoa, eu já começava a desconfiar que o senhor tinha realmente algo muito importante a nos passar.

Durante todo o tempo em que passamos jogando conversa fora, eu percebi que o senhor mais velho tremia bastante uma das mãos, mas nada o impedia de continuar seus afazeres. Decidi, então, saber um pouco mais da sua história. É o jornalismo na veia, fazer o quê?

- Mas o senhor está aqui no CVV há quanto tempo?

- Ah, minha história aqui é longa… entre idas e vindas completo agora três anos na casa. Foi naquela época que descobri o diagnóstico de Parkinson. Ai, para não ficar parado, entrei numa Associação e aqui no CVV.

- Mas o seu Parkinson é bem leve, né?

- Para mim é. Quer dizer, na verdade, eu criei um lema. Esqueça a doença e ela esquecerá você.

Se até então eu ainda não havia entendido o que ele tinha para me ensinar, naquele momento ficou muito claro. Às vezes, Deus fala conosco através de pessoas que nem sequer imaginaríamos que poderiam ser as respostas para as nossas perguntas em direção ao divino.

Terminei nossa conversa agradecendo, com todas as palavras que precisavam ser ditas, pelos ensinamentos em tão curto período. Talvez desacostumado com elogios, o senhor esboçou um sorriso sem graça e disse: Fico feliz que tenha te ajudado. E apertamos as mãos.

Vou falar por experiência própria. Às vezes ficamos tão incomodados com o peso que temos que carregar com certas doenças ou problemas diversos, que esquecemos de tentar olhar ao redor. Na verdade, não é que esquecemos, é que fica difícil evitar de pensar o quão pesada é a carga. Mais do que ninguém, eu sei exatamente como é.

Por muitos momentos a gente questiona todas as divindades e energias superiores possíveis. Mas, não adianta. Parece que a resposta nunca chega. Ou, quando se mostra em nossas vidas, não parece ser o que esperávamos escutar.

Hoje percebo que tal ensinamento funciona para tudo na vida. Você vai ter que aprender a saber sorrir mesmo em meio a tantas lágrimas. Vai precisar continuar o caminho, mesmo que tenha caído e não consiga levantar. Você vai ter que insistir em acreditar que ainda dá para dar a volta por cima, mesmo que você nunca tenha estado em terreno tão baixo na vida.

Enfim, hoje vejo que é preciso aprender a dançar descalço na chuva enquanto os dias ensolarados não chegam. Quem sabe assim a gente esquece como dói conviver com os sintomas do resfriado e tenta aproveitar como é bom os pinguinhos da chuva batendo bem fundo na nossa pele. :)

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

O amor que guardei para mim Malu Silveira é jornalista. Uma garota de palavras e que adora frases de efeito. Escreve para tentar entender a vida e esse tal do amor. Outros textos em www.oamorqueguardeiparamim.com.br. maluspmelo@gmail.com

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