O amor que guardei para mim

Não se culpe tanto assim por sentir raiva

Publicado em 02/08/2018, às 08h30 | Atualizado em 02/08/2018, às 08h32

Por Malu Silveira

Não podemos evitar que a raiva, vez ou outra, nos atinja em cheio / Foto: Pixabay

Não podemos evitar que a raiva, vez ou outra, nos atinja em cheio Foto: Pixabay

Eu não sei você, mas sempre desconfio de quem, após engolir uma sacanagem alheia, não nutre raiva alguma pelo cidadão que lhe causou tamanho sofrimento. Geralmente eu olho meio de soslaio para aquele Dalai Lama na minha frente, semicerro os olhos e penso: ‘quer dizer então, bonito, que o senhor não sente vontade, nem um pouco, de que o indivíduo leve uma topada no meio da rua e arranque o samboque do dedão?’. Por dentro me sinto pessoalmente ofendida, por fora apenas observo e aceno.

Eu realmente devo ter passado direto na fila dos ‘evoluídos’ na hora de descer à Terra, uma vez que é incrível a quantidade de pessoas que se dizem tão indulgentes a ponto de esquecer - e perdoar - com uma facilidade incrível as maldades que cometem conosco. Eles perdoam até mesmo quando a outra parte nem fazem questão do perdão. Pelo contrário, estão esperando só mais uma oportunidade para errar novamente. E eu aqui, pensando, vez ou outra, como seria bom se o mundo girasse e os malfeitores pagassem por todas as pilantragens que fizeram comigo.

É isso, meus amigos, vivemos na ‘ditadura’ dos condescendentes. Ninguém mais pode sentir uma raiva que logo é enxotado para fora da bolha dos misericordiosos.

Vou provar minha tese. Reunida com uma amiga num café, escutava ela falando sobre como se sentia magoada com as atrocidades que um indivíduo havia cometido contra a pobre. Cada vez que ela desatinava a verbalizar sua raiva em forma de desejos - benignos - de revide, se corrigia e logo tratava de se justificar. Como se fosse muito errado sentir sede de vingança. Como se a vilã fosse ela por tramar, nem que fosse apenas em sua mente, uma represália. Como se precisássemos digerir nossos sentimentos com a velocidade de um processador ligado na última potência e logo esquecer os acontecimentos.

A cada justificativa, eu assentia com a benevolência de uma mãe. Até que eu enchi o saco de concordar e tratei logo de mandar a real: bora, minha filha, você não precisa se justificar por se sentir assim. Nem se sentir absurdamente constrangida por desejar o mal a quem também lhe fez mal. Estranho seria se você sentisse vontade de mandar flores.

Eu entendo que nos sintamos um pouco desconfortáveis com o fato de nutrir sentimentos conflituosos em relação a outra pessoa, uma vez que, na maior parte das vezes, esse desgaste só faz mal a quem sente. Perdoar faz bem e é uma maravilha, mas perdoar à força, por imposição da sociedade, é engolir um abacaxi sem casca.

Nós insistimos em dizer que não deveríamos sentir o que sentimos porque os outros dizem que tais sensações são moralmente erradas. É como se a opinião de todos importasse, menos a nossa dor. E o que fazemos com ela enquanto ainda dói? Jogamos no lixo enquanto ainda faz parte de nós? Descartamos a todo custo sem que tenhamos esmiuçado cada pedacinho para entender e visualizar cada aresta da nossa mágoa?

Por que precisamos nos desculpar toda vez que sentimos raiva e, nas nossas conjecturas, esboçamos mil planos de punir quem nos ‘atacou’? Se raiva, assim como o amor, é um dos sentimentos mais primários do mundo? Não podemos evitar que ela, vez ou outra, nos atinja em cheio.

A diferença é para onde iremos direcioná-la. Tem gente que vai pintar um quadro, outros vão correr quilômetros nas academias. Tem gente que desconta na sessão de terapia. Há quem esmurre o travesseiro ou jogue o celular na parede. Outros vão escrever um livro, como eu, por exemplo. (Tudo passa, esse amor vai passar também / À venda no instagram @oamorqueguardeiparamim)

Ninguém precisa ser bonzinho o tempo todo. Tá liberado pintar o sete em pensamento. E também não é obrigado bancar a Madre Teresa de Calcutá e sair distribuindo perdão sem olhar a quem. Os processos precisam ser respeitados. E eles costumam ser, para muitos de nós, dolorosos. Levam tempo e, neste caminho, rolam muitas lágrimas.

Mas, como tudo na vida, a raiva também costuma passar. Mas somente se escolhemos não alimentá-la. Por isso, não a ignore, mas também não dê tanta comida. Um dia ela morre de fome.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

O amor que guardei para mim Malu Silveira é jornalista. Uma garota de palavras e que adora frases de efeito. Escreve para tentar entender a vida e esse tal do amor. Outros textos em www.oamorqueguardeiparamim.com.br. maluspmelo@gmail.com

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