Só a vida, não basta!

Troca-se de casa e até de cônjuge, mas a geladeira fica

Publicado em 25/01/2018, às 15h55 | Atualizado em 25/01/2018, às 16h09

Por Diego Garcez

A geladeira é uma prateleira viva, quase um portal para outras dimensões / Foto: Reprodução

A geladeira é uma prateleira viva, quase um portal para outras dimensões Foto: Reprodução

Ontem tive uma fome súbita, abri a geladeira para fazer um sanduíche, olhei para a porta dela com aquelas estantes que sustentam caladas os penduricalhos do mundo e achei que merecia um texto. Fiquei por um minuto olhando os ovos e me concentrei nos vinhos abertos outrora e estagnados ali naquele canto de mundo, como uma promessa de orgasmo não alcançado.

Lembrei de uma geladeira marrom da casa de mãe, quanta história. Resistiu até recentemente, certamente foram mais de 20 anos. Teve sim um lugar essencial na minha sobrevivência e acompanha minhas memórias mais íntimas.

Lembro-me do ataque coletivo que ela sofria à noite, após as 22 horas, quando eu e meu pai íamos sempre atrás do feijão. Comíamos gelado sob a justificativa de que a pimenta o esquentaria. Era sem dúvida um momento de extremo companheirismo e cumplicidade. Sentados à mesa diante de um prato fundo, meio escondidos do mundo, ríamos o riso do traquina. A cumplicidade forjada ali nos acompanha até hoje, mas atualmente ela se mostra viva através da troca de dicas paliativas para dores no estômago. Por que será? 

A geladeira é uma prateleira viva, quase um portal para outras dimensões. A partir dela se inicia um jantar rebuscado ou um cozido em família, sempre acompanhados de diálogos e experiências diversas. Ela é um primo distante que se instalou na cozinha e ninguém lembra se foi a convite ou puro enxerimento. Tem algum afeto envolvido e dá o que falar.

A troca deste dispositivo nunca é algo que passa despercebido, mesmo que a relação atualmente esteja longe de ser brastempiana, pois tudo parece ser mais fugaz. Sempre há um anúncio a ser feito, ¨troquei minha geladeira¨. Possivelmente uma mensagem sem resposta no whatsapp, mas nunca é um movimento totalmente anônimo, isento de algum sentimento.

Como era antes da geladeira?

Deve ser porque antes de ela existir as coisas eram bem mais difíceis. Imagine você ter que comprar diariamente o que irá comer. É difícil conceber que chegamos até o século XX sem ela. A bendita só veio ao mundo no início do século passado e apareceu de forma massiva nas nossas casas apenas na segunda metade do século. E foi revolucionária. Trouxe comodidade, saúde e impulsionou a criação de novas cadeias econômicas transformadoras, como os supermercados e seus sistemas de abastecimento e distribuição.

Não é a toa que este é um dos primeiros produtos que é comprado pelas famílias quando um país de baixa renda começa a dar saltos no desenvolvimento econômico.Isso de alguma forma ficou na memória do brasileiro. Afinal quando se fala em casamento ainda hoje, e também em divórcio, fala-se logo em seguida da geladeira.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Só a vida, não basta! Diego Garcez Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego. diego.garcez1510@gmail.com

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