Só a vida, não basta!

Deveríamos nascer velhos e morrer meninos maluquinhos

Publicado em 01/02/2018, às 21h40 | Atualizado em 01/02/2018, às 21h55

Por Diego Garcez

A forma como as crianças são tratadas comunica bastante coisa a respeito de uma sociedade / Foto: reprodução

A forma como as crianças são tratadas comunica bastante coisa a respeito de uma sociedade Foto: reprodução

O Menino Maluquinho de Ziraldo é brilhante. Através de uma ludicidade quase poética, consegue desferir um tapa com luva de pelica no mundo adulto. Um mundo chato, cartesiano e confuso, mas ao mesmo tempo deveras óbvio. Como é tão melhor ser o peralta de Ziraldo, o que confecciona o próprio relógio para ser dono das suas horas.

Num momento em que aparentemente estamos alcançando o ápice da caretice engomada e pluralidade encarcerada em plástico bolha, Ziraldo ressurgiu em minha vida como o bastião da liberdade.

Aquele menino destrambelhado lembrou-me de uma matéria que li recentemente sobre o surgimento, cada vez mais intenso, de estabelecimentos comerciais em que crianças não são bem-vindas, ou até mesmo não são permitidas. Ou seja, restaurantes, hotéis e afins em que o barulho e a bagunça saudável da fase infantil não tem espaço. Esse é um exemplo perfeito da pluralidade encarcerada em plástico bolha a que me referi acima. Adultos que não aprenderam a ser tolerantes e empáticos com o próximo o suficiente para se permitirem interagir com a diferença. Adultos que possivelmente também não aprenderam a ser tolerantes com o seu passado, pois nunca soube de alguém que já tenha nascido com barba.

A forma como as crianças são tratadas comunica bastante coisa a respeito de uma sociedade. Uma sociedade onde adultos não querem e não sabem conviver com os adultos da próxima geração me preocupa bastante. Faz-me pensar que é um lugar primeiramente bastante chato, além de hostil, individualista e sobretudo órfão de criatividade e futuro. Um lugar estéril de criatividade é um exterminador de almas. Convidem-me para o inferno, mas não me chamem para onde crianças não são bem-vindas.

Como Benjamin Button

Foto: reprodução

Costumo sempre repetir que a natureza é extremamente sábia. Lavoisier foi muito feliz ao afirmar que "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Porém, logo em seguida acrescento em tom de humor que ela errou num único ponto, deveríamos nascer velhos e morrer crianças. Exatamente como aconteceu no "Curioso Caso de Benjamin Button". Depois de termos vivido tanto, termos nos doado tanto nesse plano material, acho muito injusto sentirmos dores, limitações dos movimentos, perda de sono, da viscosidade da pele e tudo mais que acompanha a velhice. Deveríamos chegar nessa fase da vida molinhos. Sem dores nas articulações e fáceis de manusear, podendo nos recostar em qualquer minúsculo lugar para dormir o sono dos justos. Com aquela pele e cheirinho que todos querem pegar, cuidar e fazer carinho. Além disso, nos seria permitido o olhar do sonhador sem parecermos loucos.

A natureza é sábia e por isso mesmo também é dura, mas os tentáculos da nossa alma e imaginação são vastos o suficiente para ludibriá-la. É o que tenho feito todas as noites ao ler Ziraldo para meu filho. Naquele momento volto a ser a criança que leu aquele mesmo livro anos atrás. Esse resgate da minha alma não é percebido só por mim, é confirmado também pelo meu filho que me olha nos olhos sorrindo e diz com a sinceridade que só cabe à infância “meu menino maluquinho”.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Só a vida, não basta! Diego Garcez Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego. diego.garcez1510@gmail.com

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